O livro de crônicas "Caminhos Abertos", de Artur da Távola, traz um trecho interessante: “Algumas pessoas só são entendidas depois, quando não mais existem, viajaram, foram postas de lado ou se cansaram e desistiram”. Comigo não foi diferente. Muito do que entendi das minhas avós veio depois de partirem; muito do que compreendi do meu pai, em iminente viagem, e da minha mãe, surgiu após longos anos.
Entender as pessoas que nos constituíram e revisitar a história vivida com elas é compreender como contribuíram para a gênese da nossa identidade. Elas permanecem presentes em comportamentos, crenças e valores. Não se trata, aqui, de passividade diante do que nos constituiu; é preciso rever criticamente as experiências herdadas para lapidá-las. No clichê sartriano, somos a história indelével do que fizeram de nós, mas principalmente do que fazemos disso. Não herdamos apenas genes, mas construímos, a partir dessas relações, formas de desejar, silenciar, punir e interpretar o mundo. Ainda assim, transformar os pais em arquitetos absolutos da subjetividade seria simplista. O desenvolvimento humano não depende apenas do vínculo parental. Às vezes, duas crianças criadas pelos mesmos pais tornam-se muito diferentes, o que desmonta qualquer lógica absoluta.
Outro ponto: ninguém é feito apenas de legados belos. Nossa história relacional também envolve contradições, medos, silêncios e formas precárias de amar. O mundo também é duro e doloroso. Crescer não é acatar integralmente a herança recebida, mas analisá-la criticamente. De qualquer forma, conforme ensina a Teoria do Apego, desenvolvida pelo psicanalista britânico John Bowlby, o vínculo emocional positivo entre a criança e seus pais fornece elementos importantes para um bom desenvolvimento socioemocional. Assim, cabe aos pais refletir sobre o legado que desejam deixar à nova geração.
Cássio Vianna
Psicólogo da AssempBH